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Crítica: A Noiva! (2026)

Foto do escritor: Paula Moraes
Paula Moraes
28 de mai
3 min de leitura

A Noiva! (2026) parte de uma proposta ambiciosa ao tentar expandir o universo criado por Mary Shelley em Frankenstein (1818), imaginando uma continuação que mistura romance gótico, horror, fantasia e comentário social. O filme começa com a própria Shelley lamentando nunca ter conseguido continuar a história de sua criatura e decidindo possuir o corpo de uma mulher para finalmente concluir sua obra.


É assim que o filme apresenta Ida, interpretada por Jessie Buckley, uma mulher vivendo na Chicago dos anos 1930, constantemente inserida em ambientes desconfortáveis ao lado de homens estranhos. Durante um jantar, Ida é possuída pelo espírito de Mary Shelley e imediatamente passa a agir de maneira diferente, como se uma nova personalidade tivesse tomado conta de seu corpo. Em seguida, ela sofre uma queda e morre, estabelecendo o evento que dará início à trama principal.


Dias após sua morte, surge Frankenstein, interpretado por Christian Bale, apresentado como uma figura que existe além da narrativa original de Shelley. Solitário e cansado de sua própria condição, ele procura a Dra. Euphronious, vivida por Annette Bening, pedindo ajuda para criar uma companheira semelhante a ele. A médica eventualmente aceita realizar o experimento utilizando o corpo de Ida, ressuscitando-a sem possuir qualquer memória de sua vida anterior.


A partir desse ponto, o filme tenta construir uma relação entre as duas criaturas. Inicialmente, Frankenstein demonstra dificuldade em se conectar emocionalmente com Ida, mesmo tendo desejado desesperadamente sua criação. O personagem é retratado como alguém sensível e melancólico, interessado em arte, cinema e experiências humanas que vão além do desejo físico. Bale constrói um Frankenstein menos monstruoso fisicamente e mais emocionalmente devastado.


Já Ida segue um caminho mais instável. Sem memórias e tentando entender sua própria existência, ela alterna momentos de liberdade impulsiva com explosões emocionais constantes. O problema é que, com o passar do filme, a personagem acaba se tornando repetitiva e cansativa, principalmente pela insistência do roteiro em transformar quase toda sua personalidade em gritos, surtos e provocações. A proposta de apresentá-la como símbolo de libertação feminina raramente encontra desenvolvimento suficiente para sustentar o discurso que o filme parece querer construir, querendo transformá-la em símbolo de revolução, mas nunca desenvolve essa ideia além da superfície.


Depois de um incidente em uma festa terminar com Frankenstein assassinando homens que tentavam abusar de Ida, o casal passa a fugir da polícia e a narrativa assume uma estrutura de perseguição criminal. O filme então muda de tom, aproximando os protagonistas de figuras como Bonnie e Clyde, agora inseridos em uma jornada caótica entre Chicago e Nova York. Essa mudança deixa a obra visualmente mais movimentada, mas também reforça sua dificuldade em decidir exatamente o que quer ser.


Ao longo do percurso, Frankenstein só consegue se conectar verdadeiramente com Ida quando percebe nela a mesma instabilidade e violência que enxerga em si próprio. A relação entre os dois deixa de ser construída pelo desejo de amor e passa a existir pelo reconhecimento mútuo da própria monstruosidade.


Visualmente, o filme apresenta qualidades evidentes. Os cenários recriam bem a estética dos anos 1930, enquanto os figurinos e maquiagens ajudam a construir uma atmosfera gótica estilizada. A caracterização das criaturas é um dos aspectos mais interessantes da produção, principalmente pela tentativa de equilibrar aparência clássica e releitura contemporânea.


Ainda assim, mesmo com boas ideias e uma identidade visual forte, o filme sofre com problemas de ritmo. Suas duas horas parecem significativamente mais longas devido à repetição de conflitos e à dificuldade da direção em sustentar o impacto emocional das cenas. Em vários momentos, a sensação é de que a diretora Maggie Gyllenhaal possui inúmeras ideias sobre feminismo, solidão, desejo e monstruosidade, mas não consegue organizar todas elas de forma coesa dentro da narrativa. O excesso de intenções acaba enfraquecendo o impacto da história.


No fim, A Noiva! funciona mais como uma experiência estilizada do que como uma releitura realmente marcante do universo de Frankenstein. Existe ambição na tentativa de atualizar um clássico tão revisitado, mas o resultado final parece preso a discussões e abordagens que teriam causado mais impacto alguns anos atrás. Visualmente interessante e cheio de ideias, mas incapaz de transformar sua ambição em uma narrativa realmente envolvente.


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