Crítica: O Diabo Veste Prada 2 (2026)

Atualizado: 13 de mai.

O Diabo Veste Prada 2 retoma a história mantendo a estrutura do original, mas apresentando um conflito atualizado. Diferente de muitas sequências que se apoiam apenas na nostalgia, o filme constrói um enredo que dialoga diretamente com as transformações da indústria da moda e, principalmente, do jornalismo.
A narrativa se inicia com Andy, interpretada por Anne Hathaway, sendo demitida após a venda da revista onde trabalhava. O episódio funciona como ponto de partida para sua reaproximação com a Runway, agora em um cenário completamente diferente daquele visto no primeiro filme. Ao retornar como editora de Cultura, Andy encontra uma publicação que luta para se manter relevante em meio à queda das vendas físicas e à necessidade de adaptação às mídias digitais. O filme utiliza esse contexto para discutir a precarização do jornalismo cultural, com matérias cada vez mais superficiais, voltadas para cliques e engajamento, em detrimento de conteúdo mais aprofundado.
Ao longo da trama, Andy tenta se encaixar nesse novo modelo, escrevendo textos nos quais não acredita ou que não atendem às métricas impostas pela empresa. Ao mesmo tempo, o roteiro insiste em colocá-la novamente em busca de aprovação de Miranda, sugerindo que, mesmo após anos de carreira consolidada, a personagem ainda não superou completamente a influência da antiga chefe.
Miranda Priestly, vivida por Meryl Streep, retorna com uma abordagem ligeiramente diferente. A personagem agora precisa lidar com mudanças culturais no ambiente corporativo, especialmente no que diz respeito a comportamentos antes normalizados, como o assédio moral. Essa adaptação gera alguns dos momentos mais cômicos do filme, ao colocar Miranda em situações que contrastam diretamente com sua postura rígida do passado. A performance de Streep segue precisa, mas suas falas, antes marcadas por frieza e intimidação, assumem aqui um tom mais exagerado, beirando o absurdo em algumas cenas.
Já Nigel, interpretado por Stanley Tucci, surge como um dos pontos mais frágeis do roteiro. O personagem parece estagnado, ocupando praticamente o mesmo lugar de duas décadas atrás, sem um arco claro de evolução. Sua presença continua carismática, mas falta desenvolvimento que justifique sua permanência na narrativa.
O retorno de Emily, vivida por Emily Blunt, inicialmente soa como uma inserção forçada, voltada apenas para ativar o fator nostalgia. No entanto, conforme a história avança, sua participação ganha relevância e se integra de forma mais orgânica ao enredo. A personagem mantém seu humor ácido e comportamento excêntrico, ao mesmo tempo em que revisita questões não resolvidas com a Runway e com Miranda.
Outro ponto de destaque está na ampliação da diversidade dentro da redação da revista, com a presença de personagens mais variados em termos de etnia, identidade e corpos. Entre eles, a nova assistente de Miranda, interpretada por Simone Ashley, se destaca ao trazer leveza e bons momentos cômicos.
Ainda assim, a diversidade do escritório não se reflete com a mesma força nas passarelas apresentadas pelo filme, que por mais que Hathaway e Streep tenham ressaltado em entrevistas que lutaram pela inclusão de diversos biotipos nas modelos, o resultado ficou abaixo do esperado, em sua maioria apenas foi reforçado o estereótipo esperado para o meio.
Visualmente, o filme apresenta mudanças que nem sempre funcionam a seu favor. A escolha de lentes que vem sendo popularizadas na última década e alguns recursos de direção, como o uso frequente de zooms, destoam do estilo mais clássico do original e, em certos momentos, passam a sensação de uma produção menos refinada. Em contrapartida, o figurino se destaca positivamente, com peças mais ousadas, uso marcante de cores e texturas que estão em alta, e uma clara aproximação com grandes marcas da indústria, evidenciada inclusive por participações especiais como a de Donatella Versace.
O filme também revisita momentos icônicos do original, como as sequências de transformação de Andy, agora aplicadas a diferentes personagens. No entanto, essas mudanças permanecem apenas no campo estético, sem o mesmo impacto emocional de transformação que representa o primeiro filme.
Paralelamente, a narrativa introduz um novo dilema moral: a possibilidade de Andy escrever um livro sobre sua experiência com Miranda, retomando a origem da própria história, inspirada na vivência de uma antiga assistente, Lauren Weisberger, com Anna Wintour.
No conjunto, O Diabo Veste Prada 2 se mostra uma continuação consistente, que vai além do apelo nostálgico ao abordar transformações reais da moda e da comunicação. Mesmo com algumas limitações no desenvolvimento de personagens e escolhas visuais irregulares, o filme mantém o entretenimento e oferece uma leitura atualizada de um universo já conhecido. Uma sequência relevante, que entende seu tempo sem esquecer suas origens.





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