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Crítica: Crônicas de uma Santa Errante (2023)

Foto do escritor: Paula Moraes
Paula Moraes
21 de mai.
3 min de leitura

Crônicas de uma Santa Errante (2023) constrói sua narrativa a partir de uma protagonista simples e solitária, transformando uma história sobre morte em uma comédia melancólica marcada pelo absurdo e a fantasia. O filme acompanha Rita, interpretada por Mónica Villa, uma senhora que trabalha como faxineira em uma igreja e leva uma vida marcada pela rotina e pela sensação constante de invisibilidade.


Logo no início, Rita acredita ter encontrado nos depósitos da igreja que trabalha uma estátua desaparecida de Santa Rita, considerada perdida há décadas. Convencida de que sua descoberta pode finalmente lhe trazer reconhecimento dentro da paróquia, ela pede ajuda ao marido para levar a imagem para casa. A personagem demonstra um desejo silencioso de pertencimento, especialmente em relação às outras mulheres da igreja, com quem tenta se aproximar sem muito sucesso.


O filme utiliza essa motivação de forma delicada para revelar uma personagem profundamente insegura, que enxerga naquela descoberta uma oportunidade de finalmente ser vista de outra maneira. Depois de pesquisar mais sobre a estátua, Rita percebe que o objeto encontrado não é o original desaparecido. Mesmo assim, já havia criado expectativa ao redor da suposta descoberta milagrosa e decide, junto do marido, reformar a peça falsa para fazê-la parecer autêntica.


É nesse ponto que a narrativa passa a misturar drama existencial e humor absurdo. Após sair para comprar flores para decorar a imagem, Rita atropela um cachorro na estrada e acaba caindo com o carro em um lago, morrendo afogada. A verdadeira mudança acontece apenas quando Rita retorna para casa e encontra o próprio corpo deitado na cama, percebendo então que morreu no acidente.


A partir daí, a protagonista passa a vagar como espírito, tentando desesperadamente se comunicar com os vivos. O filme encontra boa parte de seu humor justamente nessas tentativas frustradas, utilizando situações absurdas e pequenos acontecimentos cotidianos para explorar a condição da personagem após a morte. Em vários momentos, a obra brinca com a ideia de que o pós-vida pode ser tão burocrático, confuso e solitário quanto a própria existência.


O aspecto fantástico ganha ainda mais força quando Rita começa a interagir com outros espíritos, que aparecem das formas mais improváveis possíveis, incorporados em objetos, animais e figuras aparentemente banais. Essas escolhas ajudam a criar um universo que mistura realismo e surrealismo sem precisar existir de forma racional, permitindo que o absurdo funcione como extensão emocional da protagonista.


Em meio a essas tentativas de contato, Rita é abordada por um anjo que lhe informa que ela está qualificada para ir ao céu. Antes disso, porém, ela recebe a opção de permanecer mais alguns dias na Terra observando seus entes queridos, sem que nada do que faça possa ser usado contra ela. 


Além do toque cômico, o roteiro também trabalha temas como solidão, envelhecimento e luto. Rita é retratada como alguém que passou grande parte da vida tentando ocupar pouco espaço, aceitando silenciosamente relações mornas e a falta de reconhecimento ao seu redor. Sua morte acaba funcionando, paradoxalmente, como o momento em que ela finalmente começa a observar a própria vida com mais clareza. O filme transforma a morte em oportunidade para refletir sobre tudo o que ficou inacabado em vida.


Visualmente simples, mas eficiente em seu tom, Crônicas de uma Santa Errante aposta muito mais nos diálogos, nas situações excêntricas e na sensibilidade da atuação de Mónica Villa do que em grandes acontecimentos. A atriz conduz a narrativa com naturalidade, equilibrando humor e melancolia sem exageros.


No fim, o filme funciona como uma história sobre pessoas que passam tanto tempo tentando serem notadas que acabam esquecendo de viver plenamente suas próprias vidas. Entre fantasmas, acidentes improváveis e milagres duvidosos, a obra constrói uma reflexão leve sobre pertencimento, memória e a necessidade humana de deixar algum tipo de marca no mundo. O filme é uma comédia melancólica sobre solidão, reconhecimento e tudo aquilo que permanece mesmo depois da morte.


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