top of page

Greves de roteiristas em Hollywood revelam disputas históricas por direitos e reconhecimento

Foto do escritor: Paula Moraes
Paula Moraes
11 de fev.
4 min de leitura

As greves de roteiristas fazem parte da história de Hollywood e ajudam a entender como a indústria audiovisual reage a transformações tecnológicas, econômicas e trabalhistas. Organizadas pelo sindicato dos roteiristas, Writers Guild of America (WGA), essas paralisações ocorrem quando os profissionais entendem que seus contratos e remunerações não acompanham as mudanças do mercado.


Desde a criação do sindicato, em 1933, os roteiristas entraram em greve em sete ocasiões: 1960, 1973, 1981, 1985, 1988, 2007–2008 e 2023. Cada uma delas esteve ligada a um momento específico da indústria, mas todas tiveram como eixo central a defesa dos direitos autorais e da participação financeira sobre as obras.


Impactos na indústria audiovisual


Os efeitos das greves são imediatos. Produções são interrompidas, estreias adiadas e temporadas encurtadas. Na televisão, cresce a oportunidade para a criação de programas não roteirizados, como realities e talk shows, enquanto o cinema enfrenta atrasos no desenvolvimento de projetos e lançamentos.


No longo prazo, no entanto, essas paralisações costumam gerar mudanças estruturais. A regulamentação dos pagamentos residuais, a criação de contratos mínimos e a proteção de direitos autorais são resultados diretos de negociações feitas após períodos de greve.


As sete greves de roteiristas e o contexto de cada paralisação


A primeira greve do WGA ocorreu em 1960 e durou cerca de cinco meses. A televisão se consolidava como principal meio de entretenimento doméstico, e os roteiristas reivindicavam participação financeira sobre reprises de seus trabalhos exibidos, que até então, os contratos não previam pagamentos residuais para exibições televisivas. A paralisação afetou programas de variedades e talk shows populares da época, incluindo The Tonight Show, que saiu do ar temporariamente. A paralisação resultou na criação do sistema de residuais para televisão, um marco histórico para os direitos autorais dos roteiristas, que posteriormente também foi reivindicado pelo sindicato dos atores.


Em 1973, a segunda greve refletiu o crescimento do mercado internacional e das retransmissões e durou aproximadamente três meses. Os roteiristas exigiam melhorias nos valores dos residuais e maior proteção contratual diante da expansão global da televisão americana. Séries exibidas em horário nobre tiveram episódios adiados, e produções de estúdios como CBS e NBC sofreram atrasos. O acordo firmado após a paralisação garantiu reajustes e consolidou a presença do sindicato nas negociações sobre distribuição de audiovisual para fora dos Estados Unidos.


A greve de 1981 durou cerca de três meses e foi motivada pelo crescimento do mercado de videocassetes e da televisão a cabo. Os roteiristas buscavam compensações pela venda e aluguel de fitas VHS de filmes e séries, um mercado que crescia rapidamente e gerava altos lucros para os estúdios. Produções cinematográficas em desenvolvimento foram adiadas, e séries em exibição reduziram suas temporadas. O sindicato conquistou pagamentos residuais específicos para as fitas VHS, ainda que em valores porcentuais baixos para à época.


Elenco original de Dynasty: Heather Locklear, Pamela Bellwood , Linda Evans, John Forsythe, Joan Collins e Pamela Sue Martin. Reprodução: ABC Photo Archives.
Elenco original de Dynasty: Heather Locklear, Pamela Bellwood , Linda Evans, John Forsythe, Joan Collins e Pamela Sue Martin. Reprodução: ABC Photo Archives.

Em 1985, uma nova paralisação, com duração aproximada de duas semanas, teve como foco o aumento dos percentuais de residuais e a resistência dos estúdios em renegociar contratos diante da consolidação do mercado de audiovisual doméstico. Embora a greve tenha sido mais curta, ela acabou por afetar séries populares da época, como Dynasty e Dallas. O acordo resultou em ajustes contratuais e consolidou o modelo de pagamentos residuais.


Elenco principal de Moonlight: Bruce Willis e Cybill Shepherd. Reprodução: Getty Images.
Elenco principal de Moonlight: Bruce Willis e Cybill Shepherd. Reprodução: Getty Images.

A greve de 1988, a mais longa da história do sindicato,  teve duração de 22 semanas. O movimento aconteceu em um cenário de forte crescimento da televisão a cabo e da produção seriada.  Séries como Cheers, The Cosby Show e Moonlighting tiveram temporadas encurtadas ou interrompidas, enquanto produções não roteirizadas ganharam espaço na programação. Os roteiristas buscavam melhorias nos valores de residuais e limites para a reutilização de roteiros sem compensação adicional. O acordo final trouxe ganhos graduais nos pagamentos e maior clareza contratual.


Elenco principal de Lost na terceira temporada. Reprodução: Getty Images.
Elenco principal de Lost na terceira temporada. Reprodução: Getty Images.

Entre 2007 e 2008, a indústria enfrentou o impacto inicial da distribuição digital. Plataformas online começaram a exibir conteúdos audiovisuais, mas os estúdios tratavam esse mercado como experimental. Depois de 100 dias de greve, os roteiristas exigiram participação nos lucros do streaming e da distribuição pela internet. Séries como Lost, Breaking Bad, Grey’s Anatomy e Heroes tiveram temporadas reduzidas. A greve resultou no reconhecimento formal do meio digital nos contratos, estabelecendo bases para pagamentos residuais no ambiente digital


Elenco principal de Abbott Elementary na quarta temporada: William Stanford Davis, Lisa Ann Walter, Tyler James Williams, Quinta Brunson, Sheryl Lee Ralph, Chris Perfetti e Janelle James. Reprodução: ABC.
Elenco principal de Abbott Elementary na quarta temporada: William Stanford Davis, Lisa Ann Walter, Tyler James Williams, Quinta Brunson, Sheryl Lee Ralph, Chris Perfetti e Janelle James. Reprodução: ABC.

A greve mais recente ocorreu em 2023 junto da greve dos atores estimulada pelo SAG-AFTRA, e durou 148 dias. A motivaram a paralisação era a consolidação do streaming como principal modelo de consumo audiovisual, acompanhada da queda dos rendimentos residuais, da redução dos números de episódios por temporada e do avanço da inteligência artificial. Produções como Stranger Things, The Last of Us e Abbott Elementary tiveram que ser interrompidas. O acordo final incluiu reajustes salariais, novos modelos de remuneração no streaming e cláusulas que limitam o uso de inteligência artificial na criação de roteiros, preservando a autoria humana.

Comentários


Tela Crítica

© 2023 by Paula Moraes.

Proudly created with Wix.com

  • LinkedIn
  • Instagram

Contatar

Obrigada por enviar!

bottom of page