De Coraline a O Bosque Selvagem: conheça a trajetória da LAIKA


Conhecido por produções como Coraline e o Mundo Secreto (2009), ParaNorman (2012) e Kubo e as Cordas Mágicas (2016), o estúdio LAIKA construiu uma trajetória marcada pelo investimento em animação stop-motion e pelo desenvolvimento de novas técnicas que ampliaram as possibilidades desse formato.
Com sede em Portland, no estado de Oregon, nos Estados Unidos, a LAIKA, como é conhecida atualmente, surgiu em 2005 a partir de uma antiga empresa de animação chamada Will Vinton Studios. Desde então, passou por diferentes transformações até se consolidar como uma das principais referências contemporâneas do stop-motion.
Ao longo de sua história, o estúdio combinou processos artesanais com recursos digitais, mantendo uma identidade visual própria em suas produções e contribuindo para a valorização de uma técnica que exige um trabalho minucioso em todas as etapas de produção.
A origem do estúdio: Will Vinton Studios

A história da LAIKA começa em 1975, com a criação da Will Vinton Productions, posteriormente conhecida como Will Vinton Studios, na cidade de Portland, no estado de Oregon, nos Estados Unidos. Fundada pelo animador Will Vinton e pelo produtor Bob Gardiner, a empresa surgiu em um período de experimentação com técnicas de animação artesanal e ganhou reconhecimento pelo desenvolvimento de produções em Claymation, um formato de stop-motion que utiliza personagens e cenários feitos de massinha de modelar.
Um dos primeiros trabalhos de destaque da dupla foi o curta-metragem Closed Mondays (1974), dirigido por Vinton e Gardiner. A produção utilizava animação com argila e conquistou o Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação em 1975. O reconhecimento ajudou a impulsionar a carreira de Vinton e contribuiu para o estabelecimento de seu estúdio como uma referência na técnica.
Nos anos seguintes, a empresa ampliou suas atividades e passou a produzir comerciais, curtas-metragens, especiais para televisão e projetos de entretenimento. A popularização da Claymation também esteve relacionada à criação de personagens que se tornaram conhecidos pelo público norte-americano, especialmente os California Raisins, uma banda
fictícia formada por uvas-passas que estrelou campanhas publicitárias na década de 1980. O sucesso dos personagens levou à produção de especiais televisivos e ajudou a consolidar a reputação comercial da companhia.
A mudança de proprietários e a transformação em LAIKA

Apesar do reconhecimento conquistado nas décadas de 1970 e 1980, a Will Vinton Studios enfrentou dificuldades para manter seu crescimento nos anos seguintes. Durante a década de 1990, a empresa buscou ampliar suas atividades e passou a investir em projetos para televisão e produções de maior duração. Essa expansão exigiu novos recursos financeiros e uma estrutura de produção mais ampla, levando a companhia a procurar investidores externos.
Foi nesse contexto que Phil Knight, cofundador da Nike, entrou na história do estúdio. Em 1998, o empresário adquiriu uma participação de aproximadamente 15% na companhia, tornando-se um dos investidores da empresa. Inicialmente, sua participação tinha caráter financeiro, com o objetivo de apoiar os planos de expansão de Will Vinton, que pretendia levar suas produções para o mercado de longas-metragens.
A entrada de Knight também aproximou seu filho, Travis Knight, da empresa. Interessado em animação, ele começou a trabalhar na Will Vinton Studios ainda no final dos anos 1990, inicialmente em funções de produção e, posteriormente, como animador.
No entanto, os planos de crescimento não alcançaram os resultados esperados. A empresa enfrentou dificuldades financeiras relacionadas à expansão de suas operações, ao cancelamento de projetos e aos custos de manutenção de uma estrutura cada vez maior. Entre as produções desenvolvidas nesse período estava The PJs, série de televisão em stop-motion criada por Eddie Murphy e Larry Wilmore, que estreou em 1999. Embora tenha recebido reconhecimento por sua proposta visual, o projeto não conseguiu sustentar os resultados comerciais necessários para resolver os problemas financeiros da companhia.
Diante desse cenário, Will Vinton voltou a procurar Phil Knight em busca de novos investimentos. Em outubro de 2002, após uma nova injeção de recursos e a emissão de ações, Knight passou a ser o acionista majoritário da empresa e também assumiu uma posição no conselho administrativo. A mudança representou uma alteração significativa na estrutura de poder da companhia, que até então era controlada por seu fundador.
A relação entre os dois empresários, entretanto, se deteriorou durante o processo de reestruturação. Em 2003, após novas dificuldades financeiras e divergências sobre os rumos da empresa, Vinton foi afastado de seu cargo. A saída provocou uma disputa judicial entre o animador e os novos responsáveis pelo estúdio, com Vinton contestando as circunstâncias de seu desligamento e a perda do controle da companhia que levava seu nome.
Em setembro daquele ano, Phil Knight assumiu o controle integral da Will Vinton Studios, tornando-se seu único acionista. A mudança encerrou a participação de Vinton na empresa que havia fundado quase três décadas antes. O animador continuou trabalhando com projetos independentes e posteriormente criou outro pequeno estúdio, chamado Freewill, enquanto a antiga companhia seguia sob a administração de Knight.
Com o controle da empresa consolidado, Knight começou a desenvolver um novo projeto para o negócio, com maior atenção à produção de longas-metragens e à criação de uma estrutura voltada ao mercado cinematográfico. Em julho de 2005, anunciou oficialmente a incorporação da Will Vinton Studios a uma nova empresa de entretenimento chamada LAIKA. A mudança de nome também representou o início de uma nova identidade criativa, que deixaria de ter como principal atividade a produção de comerciais para concentrar seus investimentos em filmes de animação.
A nova fase contou com a participação de Travis Knight, que assumiu responsabilidades cada vez maiores na administração e no desenvolvimento dos projetos. O cineasta Henry Selick também foi contratado como diretor supervisor, contribuindo para a formação da equipe responsável pelas primeiras produções da empresa. A intenção era estabelecer um estúdio independente capaz de desenvolver histórias originais e explorar diferentes técnicas de animação, com destaque para o stop-motion.
A chegada de Coraline e o primeiro reconhecimento internacional

Um dos primeiros projetos desenvolvidos pela nova empresa foi Moongirl, curta-metragem em animação digital dirigido por Henry Selick, cineasta conhecido por trabalhos como O Estranho Mundo de Jack (1993) e James e o Pêssego Gigante (1996). A parceria com o diretor abriu caminho para a primeira produção de longa-metragem da LAIKA.
Lançado em 2009, Coraline e o Mundo Secreto foi dirigido por Selick e baseado no livro homônimo de Neil Gaiman. A história acompanha uma garota que encontra uma passagem para uma realidade alternativa, onde tudo parece melhor do que em sua própria casa. No entanto, a descoberta de uma versão diferente de sua família revela que aquele lugar esconde perigos.
A produção chamou atenção pelo visual detalhado e pela combinação entre fantasia e elementos de terror. Além de utilizar a técnica stop-motion, o filme foi produzido em 3D estereoscópico e incorporou recursos de impressão 3D para a criação de diferentes expressões faciais dos personagens. O processo permitiu que os animadores substituíssem pequenas peças dos bonecos ao longo das filmagens, criando movimentos e expressões mais elaborados.
O resultado foi um importante reconhecimento para o estúdio. Coraline recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Animação em 2010 e ajudou a estabelecer a identidade visual da LAIKA, que passou a ser associada a histórias de fantasia com atmosferas sombrias e personagens construídos com grande atenção aos detalhes.
A consolidação com novos filmes
Depois da repercussão de Coraline, a LAIKA deu continuidade aos investimentos em longas-metragens e passou a desenvolver projetos com diferentes diretores e propostas visuais. Em 2012, lançou ParaNorman, dirigido por Chris Butler e Sam Fell. A produção acompanha Norman, um garoto que consegue conversar com pessoas mortas e precisa impedir uma antiga maldição de atingir sua cidade. Assim como o primeiro filme do estúdio, a animação recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Animação.
Dois anos depois, chegou aos cinemas Os Boxtrolls (2014), dirigido por Graham Annable e Anthony Stacchi. Baseado no livro Here Be Monsters!, de Alan Snow, o longa apresenta criaturas que vivem escondidas nos subterrâneos de uma cidade e acabam se envolvendo com um garoto criado por elas. A produção também foi indicada ao Oscar de Melhor Animação, dando continuidade à sequência de reconhecimento da empresa.
Em 2016, o estúdio lançou Kubo e as Cordas Mágicas, primeiro longa-metragem dirigido por Travis Knight. Ambientada em um universo inspirado na cultura japonesa, a história acompanha um garoto que utiliza sua música para dar vida a figuras feitas de papel e precisa enfrentar forças sobrenaturais ligadas ao passado de sua família. O filme recebeu duas indicações ao Oscar, nas categorias de Melhor Animação e Melhores Efeitos Visuais, além de conquistar o BAFTA de Melhor Filme de Animação.
A quinta produção da empresa foi Link Perdido (2019), dirigida por Chris Butler. A trama acompanha um explorador que encontra uma criatura misteriosa e decide ajudá-la a encontrar seus parentes. Diferentemente dos filmes anteriores, a animação apresenta uma aventura com maior presença de humor e elementos de comédia. O longa conquistou o Globo de Ouro de Melhor Filme de Animação em 2020 e também recebeu uma indicação ao Oscar.
Com esses lançamentos, a LAIKA consolidou sua presença constante nas principais premiações, já que todos os cinco primeiros longas-metragens do estúdio receberam indicações ao Oscar de Melhor Animação.
A inovação tecnológica e o trabalho artesanal

Um dos principais diferenciais da LAIKA está na maneira como o estúdio utiliza a tecnologia para ampliar as possibilidades da animação tradicional. Mesmo mantendo o stop-motion como base de suas produções, a empresa incorporou ferramentas digitais ao processo de criação, especialmente a impressão 3D, que passou a desempenhar um papel importante na construção dos personagens.
O stop-motion é uma técnica que consiste em fotografar objetos físicos quadro a quadro, movimentando-os gradualmente entre cada registro para criar a sensação de movimento. Como são necessárias 24 imagens para formar um segundo de animação no padrão cinematográfico, a produção de um longa-metragem exige milhares de movimentos planejados e executados manualmente.
A impressão 3D trouxe novas possibilidades para esse processo, principalmente na criação das expressões faciais. Em vez de produzir apenas um rosto para cada personagem, os artistas podem desenvolver diferentes versões de suas feições e substituí-las durante as filmagens. Dessa maneira, os bonecos conseguem apresentar uma variedade maior de emoções e movimentos.
A tecnologia foi utilizada de maneira marcante em Coraline e o Mundo Secreto e continuou sendo aprimorada nas produções seguintes. Em 2016, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas reconheceu esse trabalho ao conceder a Brian McLean e Martin Meunier um prêmio científico e técnico pelo pioneirismo no uso de prototipagem rápida para animação de personagens em stop-motion.
Apesar dos avanços tecnológicos, o trabalho artesanal continua sendo uma parte fundamental da identidade da empresa. Os bonecos, figurinos, objetos e cenários são construídos fisicamente, enquanto os recursos digitais são utilizados para complementar as imagens e criar efeitos que seriam mais difíceis de realizar apenas com técnicas tradicionais.
A expansão dos projetos e a chegada de O Bosque Selvagem

Após o lançamento de Link Perdido, em 2019, a LAIKA iniciou um período sem estreias de novos longas-metragens. Durante esses anos, o estúdio continuou trabalhando no desenvolvimento de projetos e no aprimoramento de suas técnicas, enquanto preparava uma produção que representaria uma nova etapa em sua trajetória.
O projeto escolhido foi O Bosque Selvagem (Wildwood), adaptação do livro homônimo escrito por Colin Meloy e ilustrado por Carson Ellis. Anunciado em 2021, o filme é dirigido por Travis Knight e acompanha Prue McKeel, uma adolescente que parte em uma jornada por uma floresta encantada depois que seu irmão bebê é levado por um grupo de corvos. A história se passa em uma região fantástica inspirada nas florestas de Portland, cidade onde fica a sede da empresa.
A produção se tornou uma das mais ambiciosas da história da LAIKA, principalmente pela dimensão de seus cenários e pela quantidade de elementos construídos manualmente. Para criar o universo da história, a equipe de direção de arte desenvolveu mais de 130 cenários físicos, além de mais de 220 bonecos utilizados na animação. Entre os ambientes construídos estão florestas, construções e diferentes espaços habitados pelos personagens, cada um com características próprias.
O desenvolvimento dos cenários também contou com pesquisas sobre a vegetação e as paisagens naturais do estado de Oregon. O Forest Park, uma das maiores áreas florestais urbanas dos Estados Unidos, serviu como referência para a criação da floresta apresentada no filme. As árvores foram construídas individualmente, enquanto folhas de papel e tecido foram utilizadas para reproduzir a vegetação. Parte desse material foi cortada a laser, mas aplicada manualmente pelos artistas para preservar a aparência artesanal dos ambientes.
Outros detalhes também receberam atenção especial. Para representar o solo, por exemplo, a equipe utilizou cascas de nozes trituradas em diferentes granulometrias, criando texturas que reproduzem a aparência da terra. Já o trabalho de iluminação contou com referências de ambientes naturais, com o objetivo de reproduzir a maneira como a luz atravessa as árvores e alcança os personagens. O diretor de fotografia Caleb Deschanel chegou a levar elementos físicos da produção para áreas externas, fotografando-os sob diferentes condições de luz para orientar o trabalho realizado no estúdio.
Mesmo com a construção física dos ambientes, os recursos digitais continuaram presentes no processo. Os cenários e personagens foram digitalizados em alta resolução para permitir a criação de extensões e complementos visuais em computação gráfica. Dessa forma, a equipe conseguiu ampliar determinados espaços sem perder a aparência dos materiais e objetos construídos manualmente.
O trabalho também envolveu a produção de mais de 142 mil expressões faciais substituíveis, utilizadas para dar movimento aos personagens. Segundo dados apresentados pelo supervisor de efeitos visuais Steve Emerson durante a VIEW Conference de 2026, o filme contou com 223 bonecos artesanais, 132 cenários físicos e 728 árvores produzidas manualmente, representando dez espécies encontradas na região do Pacífico Noroeste.
O longa chegou aos cinemas brasileiros em 29 de outubro de 2026, tornando-se o sexto filme de animação stop-motion da LAIKA e o primeiro lançamento de longa-metragem do estúdio desde 2019. A produção também demonstra como a empresa ampliou sua capacidade de desenvolver universos cada vez maiores, mantendo o trabalho artesanal como parte central de sua identidade.
Os próximos projetos do estúdio
Além de O Bosque Selvagem, a LAIKA também trabalha no desenvolvimento de novas produções de animação e projetos com atores. Entre os próximos longas-metragens em stop-motion está The Night Gardener, anunciado em 2022 e baseado em uma ideia original de Bill Dubuque, criador da série "Ozark". Dirigido por Travis Knight, o filme é descrito como um conto de inspiração neo-noir ambientado na zona rural do Missouri, acompanhando um jovem que tenta manter sua família unida após uma tragédia. A história promete explorar temas como sacrifício, sobrevivência e vingança.
Outro projeto anunciado é a adaptação de Piranesi, romance de fantasia escrito por Susanna Clarke. Os direitos da obra foram adquiridos pelo estúdio em 2024, com Travis Knight confirmado na direção e Dave Kajganich, roteirista de Suspiria (2018) e Até os Ossos (2022), responsável pelo roteiro. A história acompanha um personagem que vive em uma misteriosa construção formada por corredores intermináveis, salões gigantescos, estátuas e ambientes inundados pelo mar. A proposta representa um novo desafio visual para a empresa, especialmente pela necessidade de transformar a arquitetura fantástica do livro em cenários de animação.
A expansão também alcança as produções em live-action, desenvolvidas por uma divisão própria da empresa. Entre os projetos está Seventeen, adaptação do livro de suspense escrito por John Brownlow, que acompanha um assassino de elite. Outro destaque é Atmosphere, baseado no romance de Taylor Jenkins Reid e com direção de Anna Boden e Ryan Fleck, dupla responsável por Capitã Marvel (2019). A história acompanha duas astronautas que trabalham na NASA durante os primeiros anos do programa dos ônibus espaciais, no final dos anos 1970 e início dos anos 1980.
A lista inclui ainda Audition, adaptação do romance de Katie Kitamura, que será dirigida por Lulu Wang, e Crumble, projeto original escrito e dirigido por Brian Duffield, com produção de Phil Lord e Chris Miller.
No segmento televisivo, a empresa também adquiriu os direitos do livro Exit Party, de Emily St. John Mandel, para desenvolver uma série em parceria com a produtora Fruit Tree, de Emma Stone e Dave McCary.
Com essa variedade de projetos, a LAIKA demonstra interesse em ampliar sua atuação para além do stop-motion, explorando diferentes gêneros, formatos e linguagens cinematográficas. Apesar disso, a animação artesanal continua sendo uma das principais características da empresa, que busca desenvolver histórias capazes de explorar novas possibilidades visuais e narrativas.




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