Crítica: Wasteman (2025)


Em seu primeiro longa-metragem, o diretor Cal McMau transforma Wasteman em um drama prisional tenso e claustrofóbico, que utiliza a relação entre dois detentos para discutir violência e as dificuldades enfrentadas por quem tenta deixar a criminalidade para trás. O filme acompanha Taylor (David Jonsson), um homem que está prestes a conseguir a liberdade condicional depois de passar 13 anos preso, justamente quando a chegada de um novo companheiro de cela ameaça colocar tudo a perder.
Taylor não é apresentado como o típico protagonista de um filme de prisão. Ele é inseguro, frágil e tenta passar despercebido dentro de um ambiente onde demonstrar vulnerabilidade pode ser perigoso. Depois de anos atrás das grades, seu maior desejo ao conseguir sair é reconstruir a relação com o filho.
A chegada de Dee (Tom Blyth) muda completamente essa perspectiva. Violento, manipulador e muito mais confortável dentro da lógica de poder da prisão, ele rapidamente percebe as fragilidades de Taylor e passa a influenciá-lo. A relação entre os dois funciona como o principal motor do filme, criando uma relação que mistura sobrevivência e lealdade.
David Jonsson entrega uma de suas atuações mais especialmente fortes ao construir um personagem que parece estar sempre prestes a desmoronar. Taylor não precisa estar envolvido diretamente em uma briga para transmitir tensão. Sua expressão, seu silêncio e a maneira como reage às ameaças ao redor deixam evidente o medo de não conseguir sair desse lugar.
Tom Blyth segue pelo caminho oposto. Sua atuação como Dee é mais física e agressiva, mas o ator evita transformar o personagem em um simples vilão. Existe uma inteligência por trás de suas atitudes e uma compreensão muito clara de como a prisão funciona. Dee sabe como utilizar medo, violência e influência para conseguir o que quer.
A química entre Jonsson e Blyth é um dos maiores acertos do filme. Os personagens possuem personalidades completamente diferentes, e o que transparece inicialmente ser o início de uma relação de companheirismo, conforme a história avança, as escolhas e atitudes pessoais de cada um passam a se entrelaçar e impactar o destino de ambos os personagens.
O filme também utiliza essa dinâmica para discutir um dos seus temas mais importantes: o quanto é difícil deixar a criminalidade para trás quando tudo ao redor parece empurrar o indivíduo de volta para ela.
A prisão apresentada por McMau não funciona apenas como espaço físico. Ela representa um sistema que deveria preparar pessoas para retornar à sociedade, mas que muitas vezes acaba reforçando os mesmos comportamentos que pretende combater. O filme mostra um ambiente superlotado, violento, cheio de drogas e falta de estrutura, criando uma realidade na qual permanecer fora de problemas pode ser tão difícil quanto entrar neles.
Por isso, a possibilidade de Taylor sair da prisão não significa necessariamente que seus problemas terminarão. Existe uma diferença enorme entre abrir os portões e oferecer uma verdadeira oportunidade de recomeço. O personagem precisa lidar não apenas com o passado, mas com a possibilidade de não saber mais como viver fora daquele ambiente.
O filme acerta ao não transformar essa discussão em um discurso excessivamente explicativo. A crítica ao sistema prisional aparece principalmente através das situações vividas pelos personagens, sem necessidade de diálogos longos explicando para o público o que está acontecendo e qual é a consequência daquilo. A violência não é tratada apenas como característica individual dos presos, mas também como consequência de um ambiente que coloca pessoas em constante disputa por espaço, respeito e sobrevivência.
McMau também utiliza uma câmera muito próxima dos personagens, com enquadramentos fechados e a movimentação da câmera tornando as cenas de violência ainda mais desconfortáveis. Essa escolha visual reforça a sensação de que não existe espaço para respirar. Mesmo quando os personagens estão apenas conversando, a direção mantém uma tensão que sugere que alguma coisa pode acontecer a qualquer momento.
Apesar de trabalhar com elementos conhecidos do gênero prisional, Wasteman consegue encontrar personalidade ao concentrar sua narrativa na relação entre Taylor e Dee. O filme não reinventa completamente as histórias sobre o sistema prisional, mas encontra força justamente na maneira como seus dois protagonistas carregam a narrativa.
O resultado é um drama brutal, direto e emocionalmente desgastante, que utiliza uma história de sobrevivência para questionar o que realmente significa oferecer uma segunda chance. David Jonsson e Tom Blyth são os grandes responsáveis pelo impacto da obra, sustentando uma relação cada vez mais tensa e imprevisível.
No fim, Wasteman funciona porque não trata a prisão apenas como um lugar de punição. O filme mostra como seus efeitos continuam acompanhando uma pessoa mesmo quando ela finalmente atravessa os portões para sair. Para quem tenta abandonar a criminalidade, o maior desafio pode começar justamente quando a pena termina.





Comentários