Crítica: I Love Boosters (2026)


Depois de transformar críticas ao capitalismo em sátiras surreais em Sorry to Bother You (2018), Boots Riley volta a utilizar o absurdo como ferramenta política em I Love Boosters. O diretor combina comédia, ficção científica e fantasia para construir uma história sobre exploração no mercado da moda, desigualdade social e organização dos trabalhadores. O resultado é um dos filmes visualmente mais criativos do ano, capaz de transformar uma premissa relativamente simples em uma experiência especial.
A história acompanha um grupo de amigas que vive à margem da sociedade e encontra uma forma de sobreviver roubando peças de luxo da marca Metro Design para revendê-las por preços acessíveis.
Assim como em seus trabalhos anteriores, Riley nunca está interessado em contar uma história realista. Seu cinema parte do exagero para comentar problemas reais. Logo no início, a história abandona qualquer compromisso com o cotidiano e passa a incorporar demônios e distorções temporais, sem perder de vista sua discussão política.
O diretor utiliza essa liberdade narrativa para construir uma sátira sobre a indústria da moda e sua relação com o consumo, o trabalho e o poder econômico. Enquanto grandes marcas acumulam riqueza explorando trabalhadores e transformando roupas em símbolos de status, as protagonistas encontram justamente nessas peças uma forma de desafiar o sistema que as excluiu. Além disso, o filme também discute como o mercado da moda se sustenta por relações de desigualdade e exploração.
Riley reforça constantemente a ideia de que mudanças estruturais dificilmente acontecem de maneira individual, defendendo a organização dos trabalhadores como forma capaz de enfrentar grandes corporações. Essa discussão política nunca assume um tom didático. Pelo contrário, ela é constantemente atravessada pelo humor absurdo característico do diretor, que transforma situações cotidianas em acontecimentos completamente imprevisíveis.
Visualmente, I Love Boosters impressiona do início ao fim. Figurinos, penteados, maquiagem, cenografia, efeitos práticos e animações em stop motion trabalham juntos para criar um universo com identidade própria. Cada elemento parece cuidadosamente pensado para transmitir personalidade, fazendo com que o filme possua uma estética imediatamente reconhecível.
Os figurinos merecem um destaque especial. Elaborados pela estilista Shirley Kurata, a oposição entre as peças luxuosas da Metro Design e o modo como elas são apropriadas pelas protagonistas reforça visualmente a crítica ao consumo e ao valor simbólico atribuído às marcas.
As mudanças de figurino acompanham transformações emocionais, conflitos internos e alterações na dinâmica do grupo, tornando o vestuário parte essencial da construção dramática da história.
O trabalho de direção de arte também merece reconhecimento. Os cenários são carregados de cores, texturas e pequenos detalhes que ampliam a sensação de estranhamento presente durante toda a narrativa. Lojas, escritórios, apartamentos e espaços públicos parecem existir em uma realidade paralela, onde o exagero visual acompanha perfeitamente o tom satírico da obra.
Os efeitos práticos e o uso de stop motion reforçam essa identidade. Em vez de buscar um acabamento excessivamente realista, Riley aposta em soluções artesanais que tornam o universo ainda mais excêntrico. O resultado dialoga diretamente com o espírito do filme, que abraça o absurdo como parte de sua linguagem.
Conforme a história avança, a narrativa deixa de ser apenas uma comédia sobre furtos e assume um lado de ficção científica e fantasia. Teletransporte, entidades demoníacas e acontecimentos cada vez mais improváveis surgem de forma surpreendentemente natural dentro daquele universo, aumentando a sensação de que absolutamente qualquer coisa pode acontecer.
No elenco, Keke Palmer lidera o grupo. Sua personagem é o coração emocional da narrativa, equilibrando humor, vulnerabilidade e determinação em uma atuação que acompanha perfeitamente o tom imprevisível do roteiro.
Demi Moore aparece em um dos papéis mais divertidos da produção, abraçando completamente o exagero proposto por Riley. Sua personagem representa com eficiência os excessos e a arrogância da elite ligada à indústria da moda, funcionando como uma presença tão caricata quanto ameaçadora.
O maior mérito do filme está justamente na maneira como consegue equilibrar entretenimento e crítica social. Mesmo quando a narrativa parece completamente entregue ao caos, Riley nunca perde de vista aquilo que realmente deseja discutir. O humor serve para tornar suas reflexões mais acessíveis, sem diminuir o peso das questões apresentadas.
Assim como em seus trabalhos anteriores, o diretor aborda temas como racismo, desigualdade econômica, isolamento, perda de perspectivas e exploração do trabalho, mas sempre através de personagens carismáticos e de um universo visualmente extravagante.
No fim, I Love Boosters confirma Boots Riley como um dos cineastas mais originais do cinema contemporâneo. Sua mistura de comédia, fantasia, ficção científica e comentário político dificilmente se parece com a de qualquer outro diretor atualmente. Mesmo quando o roteiro abraça o absurdo absoluto, existe sempre uma ideia muito clara sustentando cada escolha narrativa.





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