Crítica: Backrooms: Um Não-Lugar (2026)


I
nspirado na série de curtas criada por Kane Parsons para seu canal no YouTube ainda durante a adolescência, Backrooms: Um Não-Lugar assume a difícil tarefa de transformar uma das lendas urbanas mais populares da internet em um longa-metragem. O resultado é uma adaptação que respeita as origens do fenômeno ao mesmo tempo em que expande seu universo para além dos vídeos que conquistaram milhões de visualizações ao longo dos anos.
O conceito dos Backrooms surgiu em fóruns online em 2019 a partir de uma simples fotografia de um escritório vazio, iluminado por luzes fluorescentes e formado por corredores aparentemente infinitos. A imagem despertou a imaginação dos usuários, que passaram a desenvolver a ideia de um espaço paralelo onde pessoas poderiam acabar presas após escapar involuntariamente da realidade. Com o tempo, surgiram relatos fictícios, mapas, criaturas e regras próprias, transformando a imagem em um dos maiores fenômenos do horror digital recente.
Foi justamente a versão criada por Kane Parsons que popularizou o conceito para um público ainda maior. Utilizando uma estética de gravações encontradas semelhante à de A Bruxa de Blair (1999), seus curtas mostravam personagens explorando os corredores intermináveis dos Backrooms enquanto eram perseguidos por entidades desconhecidas. O longa deixa claro desde o início que está adaptando especificamente essa interpretação do universo, e não todas as versões que surgiram na internet ao longo dos anos.
As primeiras cenas já transportam o espectador para esse ambiente ao acompanhar imagens registradas por um agente da Async, a organização científica fictícia introduzida nos curtas originais. A escolha funciona como uma ponte entre os vídeos e o filme, permitindo que mesmo quem nunca teve contato com o material anterior compreenda rapidamente o contexto da narrativa.
Um dos maiores acertos da produção é ambientar a história nos anos 1990. Sem celulares, internet acessível ou tecnologia de comunicação instantânea, a sensação de isolamento se torna muito mais convincente. Ao mesmo tempo, essa decisão fortalece a própria existência da Async, já que experimentos tão absurdos seriam muito mais difíceis de serem escondidos em uma sociedade conectada como a atual.
Diferentemente dos curtas originais, que focavam quase exclusivamente na exploração dos ambientes e nas perseguições, o longa tenta desenvolver personagens com conflitos pessoais mais definidos. Cada protagonista chega aos Backrooms carregado de culpas ou questões mal resolvidas. Conforme a narrativa avança, o espaço passa a funcionar não apenas como um labirinto físico, mas também como um reflexo dos estados psicológicos dessas pessoas.
Essa abordagem adiciona uma camada dramática que ajuda a sustentar a duração do filme sem depender exclusivamente dos sustos. Em alguns momentos, os Backrooms parecem oferecer aos personagens uma escolha: enfrentar seus traumas e seguir em frente ou se perder definitivamente dentro daquele universo e abraçar a versão que eles trazem à tona de si mesmos.
O principal destaque continua sendo a direção de Kane Parsons. Mesmo em sua estreia em um projeto desta escala, ele demonstra compreender perfeitamente o que tornou seus vídeos tão populares. Cada novo corredor, sala ou ambiente apresentado carrega uma sensação constante de desconforto. O espectador nunca sabe exatamente quais são as regras daquele lugar ou até onde uma ameaça pode persegui-lo.
A construção dos cenários é essencial para esse resultado. Corredores sem fim, escritórios abandonados, espaços industriais vazios e ambientes que parecem familiares à primeira vista, mas estranhamente errados quando observados por mais tempo, com objetos presos dentro de paredes, ajudam a criar uma atmosfera de inquietação permanente. Existe uma sensação constante de que algo está fora do lugar, mesmo quando aparentemente nada está acontecendo.
Quando surge a oportunidade de explicar a origem dos Backrooms, o filme toma uma decisão inteligente. Algumas teorias são apresentadas através de diálogos e momentos de tensão envolvendo personagens ligados à Async, mas nenhuma delas é tratada como verdade absoluta. As explicações aparecem mais como hipóteses do que como respostas definitivas.
Essa escolha preserva justamente aquilo que tornou o conceito tão fascinante desde sua criação. Os Backrooms funcionam melhor como um mistério do que como um problema a ser resolvido. Explicar demais significaria remover parte do fascínio que acompanha o mito desde seus primeiros dias na internet, além de privá-los de expandir ainda mais o universo.
Visualmente, o filme consegue ampliar a escala dos curtas sem perder a identidade estética que os tornou populares. A fotografia granulada, os enquadramentos desconfortáveis e a sensação de estar assistindo a algo proibido continuam presentes, mesmo dentro de uma produção de alta escala.
Ainda assim, alguns fãs mais antigos podem sair decepcionados. Ao longo dos anos, a comunidade online criou inúmeras versões dos Backrooms, adicionando novos níveis, criaturas e interpretações próprias. O filme ignora grande parte desse material para permanecer fiel à visão original de Parsons. Para alguns espectadores, isso pode parecer uma limitação; para outros, é justamente o que impede a narrativa de se tornar excessivamente confusa.
No fim, Backrooms: Um Não-Lugar consegue realizar algo que parecia improvável: transformar uma creepypasta da internet em uma experiência cinematográfica genuinamente envolvente. O longa expande o universo criado por Kane Parsons sem abandonar o mistério, a tensão e o sentimento de estranheza que tornaram os Backrooms um fenômeno cultural.





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