A trajetória dos filmes internacionais no Oscar de Melhor Filme

Ao longo de quase um século de história, a categoria de Melhor Filme no Oscar sempre foi vista como a máxima consagração do cinema produzido em Hollywood e, majoritariamente, ocupado por produções em língua inglesa. Durante décadas, produções estrangeiras foram jogadas a categorias específicas, como Melhor Filme Internacional, fundada em 1957, 28 anos após o início da premiação.
Ainda assim, alguns filmes internacionais de língua não inglesa conseguiram romper esse bloqueio histórico, revelando uma transformação lenta, mas consistente, no perfil da Academia e de seus votantes.
Filmes internacionais indicados a Melhor Filme

Até hoje, apenas 19 filmes falados majoritariamente em línguas não inglesas foram indicados ao Oscar de Melhor Filme. Um número pequeno quando comparado às centenas de produções indicadas na categoria desde 1929, o que evidencia o quanto a premiação, por décadas, manteve um olhar restrito para obras produzidas fora do circuito tradicional do cinema americano.
A primeira indicação aconteceu ainda em 1938, com o clássico francês A Grande Ilusão, de Jean Renoir, sendo a única produção a alcançar a indicação antes do lançamento da categoria de Melhor Filme Internacional em 1957. Depois disso, passaram-se mais de três décadas até que outro filme não falado em inglês voltasse a disputar a categoria, o franco-argelino Z, em 1969.
Durante o século XX, essas indicações surgiram de forma esporádica, com títulos como Os Emigrantes, Gritos e Sussurros, O Carteiro e o Poeta, A Vida é Bela e O Tigre e o Dragão, sempre tratados como exceções dentro de um sistema fortemente centrado no cinema hollywoodiano.
Quando dois internacionais disputam a mesma edição
Por muito tempo, mesmo quando um filme internacional conseguia entrar na disputa, ele aparecia sozinho, como uma exceção. Esse cenário só mudou recentemente.
Pela primeira vez na história do Oscar, duas produções de língua não inglesa foram indicadas simultaneamente à categoria de Melhor Filme na mesma edição. Isso ocorreu na cerimônia de 2024, com as indicações de Anatomia de uma Queda e Zona de Interesse. A partir desse momento, a presença internacional deixou de ser pontual na categoria, com as cerimônias seguintes repetindo o feito.
A presença constante a partir de 2020

Outro dado sobre essa transformação é a regularidade das indicações. Desde 2020, todas as edições do Oscar registraram ao menos um filme de língua não inglesa entre os indicados a Melhor Filme.
Esse período inclui títulos como Parasita, Minari, Drive My Car, Nada de Novo no Front, Anatomia de uma Queda, Zona de Interesse, Emilia Pérez, Ainda Estou Aqui, Valor Sentimental e O Agente Secreto. A constância sugere que o reconhecimento deixou de depender exclusivamente de fenômenos pontuais e passou a refletir uma mudança estrutural na Academia.
O impacto da internacionalização dos votantes
Um dos principais fatores por trás desse movimento é a ampliação do corpo de votantes da Academia. A partir de 2015, após críticas sobre falta de diversidade, a instituição passou a convidar um número significativamente maior de profissionais internacionais em todas as categorias.
Hoje, milhares de membros da Academia vivem fora dos Estados Unidos e atuam em diferentes mercados cinematográficos. Esse processo de internacionalização ampliou o repertório cultural dos votantes, resultando em uma maior abertura para narrativas, estéticas e línguas que antes enfrentavam resistência para serem levadas a sério na principal categoria da premiação.
Um único vencedor até hoje

Apesar do aumento nas indicações, apenas um filme internacional de língua não inglesa conseguiu vencer o Oscar de Melhor Filme. Em 2020, Parasita, do sul-coreano Bong Joon-ho, fez história ao se tornar o primeiro e, até agora, único vencedor da categoria falado integralmente em uma língua não inglesa.
A vitória foi um marco simbólico e institucional, redefinindo o que parecia ser um limite insuperável da premiação. Ainda assim, o fato de o feito não ter se repetido até hoje mostra que a transformação, embora significativa, segue em andamento.




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