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Crítica: Nuremberg (2025)

Foto do escritor: Paula Moraes
Paula Moraes
9 de jul.
4 min de leitura
Russel Crowe como Hermann Göring no julgamento de Nuremberg.
Russel Crowe como Hermann Göring no julgamento de Nuremberg.

Inspirado nos acontecimentos que sucederam o fim da Segunda Guerra Mundial, Nuremberg acompanha o período entre a captura dos principais líderes do regime nazista, em 1945, e o histórico julgamento realizado em 1947 para responsabilizá-los pelos crimes cometidos durante o conflito.


Em vez de concentrar sua narrativa nas sessões do tribunal, o filme escolhe um caminho mais intimista, ao explorar a relação entre um psiquiatra americano e um dos homens mais influentes da Alemanha nazista.


A história é contada sob a perspectiva de Douglas Kelley, interpretado por Rami Malek, psiquiatra militar encarregado de avaliar a saúde mental dos prisioneiros e impedir que eles cometam suicídio antes de responderem judicialmente por seus crimes. Sua função é garantir que os acusados permaneçam vivos até o fim do julgamento, permitindo que a Justiça cumpra seu papel.


Entre todos os detentos, aquele que mais desperta sua atenção é Hermann Göring, vivido por Russell Crowe. Ex-comandante da Luftwaffe e considerado o segundo homem mais poderoso do Terceiro Reich depois de Adolf Hitler, Göring rapidamente demonstra que continua sendo um excelente estrategista, mesmo atrás das grades.


Logo em suas primeiras sessões com Kelley, o personagem finge não compreender inglês e exige a presença de um tradutor. A estratégia lhe permite ganhar tempo para elaborar respostas mais cuidadosas, controlar o ritmo das conversas e observar atentamente os outros na sala. 


Durante as sessões com Kelley, ele procura minimizar sua responsabilidade pelo Holocausto e pelos demais crimes do regime. Afirma desconhecer a dimensão do que acontecia nos campos de concentração e tenta convencer o psiquiatra de que muitas das acusações são exageradas ou resultado da propaganda dos vencedores da guerra. Em determinados momentos, chega a sugerir que os próprios judeus permaneceram nos campos por escolha, numa tentativa constante de reescrever a história e aliviar sua própria culpa.


Com o passar dos meses, a relação entre médico e paciente ultrapassa os limites estritamente profissionais. Fascinado pela inteligência, pela capacidade de argumentação e pela habilidade de manipular qualquer conversa, Kelley passa a enxergar Göring como um objeto de estudo. Seu interesse cresce a ponto de decidir escrever um livro sobre aquela convivência e lança-lo após o fim do julgamento.


Essa aproximação torna-se ainda mais delicada quando Kelley aceita entregar uma carta escrita por Göring à sua esposa e à filha. A decisão representa um primeiro passo para uma relação que se torna cada vez mais próxima. Aos poucos, o psiquiatra também estabelece contato com a família do ex-general, ultrapassando a barreira ética da profissão.


É justamente nesse ponto que o filme encontra sua principal discussão. Mais do que analisar um criminoso de guerra, a narrativa procura mostrar como pessoas inteligentes e articuladas podem conquistar a confiança de quem está ao seu redor, mesmo quando seus atos são amplamente conhecidos.


Para impedir que essa aproximação faça o espectador esquecer quem realmente é Hermann Göring, durante os interrogatórios e o julgamento, são exibidas imagens reais registradas nos campos de concentração. 


Essas sequências mudam completamente o tom da narrativa. Depois de acompanhar longas conversas entre Kelley e Göring, o espectador é confrontado com registros das vítimas, dos corpos e da destruição causada pelo regime nazista. O contraste entre o homem educado que ocupa uma cela da prisão e as atrocidades que ajudou a comandar torna-se ainda mais desconfortável.


Esses momentos também representam uma mudança para o próprio Kelley. O psiquiatra passa a enfrentar uma intensa crise interna ao perceber a distância entre o homem que conheceu ao longo de dois anos e a dimensão dos crimes dos quais ele participou. Quanto mais entende a personalidade de Göring, mais difícil se torna conciliar aquela convivência com as imagens dos campos de concentração.


Rami Malek entrega sua melhor atuação da década ao construir um protagonista constantemente dividido entre a curiosidade científica e a responsabilidade moral. Kelley não é apresentado como alguém que simpatiza com o nazismo, mas como um profissional que gradualmente perde a capacidade de manter o distanciamento necessário para estudar seu paciente e que sonha em alcançar uma grandeza na carreira.


Já Russell Crowe interpreta Göring sem recorrer a explosões ou exageros. Seu personagem assusta justamente pela calma, pela inteligência e pela facilidade com que conduz qualquer conversa a seu favor. Crowe evita transformar o general em uma caricatura e constrói um homem que compreende perfeitamente como manipular as pessoas ao seu redor.


Ao longo da narrativa, o filme também faz um alerta sobre a facilidade com que sociedades podem relativizar figuras autoritárias quando elas demonstram carisma, inteligência ou aparente cordialidade. A obra sugere que o esquecimento é um dos maiores riscos da memória histórica, lembrando que pessoas responsáveis por enormes tragédias continuam capazes de convencer, seduzir e conquistar admiradores.


Tecnicamente, Nuremberg também se destaca. A direção de arte recria com cuidado os ambientes militares, os tribunais e as prisões do pós-guerra. Figurinos, maquiagem e ambientação ajudam a transportar o espectador para aquele momento histórico sem que a reconstrução pareça excessivamente artificial.


Embora algumas passagens possam parecer mais lentas devido ao grande foco nos diálogos, a escolha reforça a proposta do filme de privilegiar o embate psicológico em vez da espetacularização do julgamento.


No fim, Nuremberg é menos um drama jurídico e mais um estudo sobre manipulação, memória e responsabilidade. Ao colocar um psiquiatra frente a frente com um dos principais líderes do nazismo, o filme questiona até que ponto é possível observar o mal de maneira objetiva sem ser influenciado por ele.


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